A taxa das blusinhas e o dilema de Lula
Poucas decisões recentes do governo Lula ilustram tão bem a tensão entre racionalidade econômica e sobrevivência política quanto a chamada “taxa das blusinhas”. Implementada em agosto de 2024, a cobrança de 20% sobre compras internacionais de até 50 dólares nasceu com justificativa técnica sólida: proteger a indústria nacional e equalizar condições de competição. Os números da CNI (Confederação Nacional da Indústria) referendam essa lógica: segundo nota técnica divulgada esta semana, a medida evitou a entrada de R$ 4,5 bilhões em importados, preservou 135,8 mil empregos e manteve R$ 19,7 bilhões na economia brasileira.
O problema é que política econômica correta nem sempre é política eleitoralmente rentável.
A queda de popularidade de Lula acelerou o que os bastidores do Planalto já discutiam em voz baixa. O ministro José Guimarães foi direto: a taxa foi “um dos elementos mais fortes de desgaste” do governo.
A percepção do eleitor médio é simples e poderosa: o Estado taxou o acesso a produtos baratos que ele já havia incorporado ao seu consumo cotidiano. Argumentos sobre empregos preservados e indústria protegida têm menor ressonância emocional do que a sensação concreta de pagar mais por uma blusa.
O vice-presidente da República, Geraldo Alckmin, representa a ala que resiste à reversão, com argumento economicamente defensável. Bancadas no Congresso Nacional, por sua vez, sinalizam resistência a qualquer mudança que fragilize o setor produtivo nacional. Fernando Haddad, arquiteto da medida, também não deve ceder sem embate.
O que se observa, portanto, é um governo dividido entre o curto e o longo prazo. Revogar a taxa pode aliviar a pressão eleitoral imediata, mas enfraquece a narrativa de proteção industrial e expõe contradições internas. Mantê-la preserva a coerência econômica, mas alimenta o desgaste popular.
Historicamente, governos que tomam decisões de política econômica por pressão eleitoral raramente colhem os frutos esperados – e frequentemente pagam o preço da inconsistência. O dilema de Lula com as blusinhas é, no fundo, o dilema de todo político que precisa governar e ao mesmo tempo sobreviver.

Resistência
O professor e ex-vereador de Florianópolis, Lino Peres, lançou sua pré-candidatura ao governo do Estado, em ato com lideranças sindicais e movimentos populares, sinalizando resistência interna no PT à indicação de Gelson Merísio (PSB) para a disputa majoritária. Apoiadores defenderam um candidato “sintonizado com o conteúdo social” do partido. O movimento vai na contramão da posição oficial da Comissão Executiva Estadual, que já reafirmou o nome de Merísio sob orientação do presidente Lula. Para a direção do partido, manifestações em sentido contrário representam “posturas individuais”. Segundo as diretrizes internas do partido, o prazo para aprovarem, por maioria qualificada (2/3 dos membros) todas as candidaturas se encerra no dia 20 de maio.

OAB e o STF
O presidente da OAB/SC, Juliano Mandelli (foto), respondeu com ironia ao ministro Gilmar Mendes, que questionou publicamente o que a entidade estaria fazendo contra fraudes de advogados. “A fala revela mais sobre o STF do que sobre a OAB”, disse Mandelli, informando que nos últimos quatro anos 557 advogados foram suspensos e 69 excluídos permanentemente da Ordem em Santa Catarina. “Talvez o incômodo não seja a omissão que não existe, mas o cumprimento do papel da OAB de criticar excessos. Antes de desqualificar críticas, seria mais produtivo se o STF refletisse sobre sua postura”, concluiu.

Toupeira cega
O deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG) e o vereador de Balneário Camboriú, Jair Renan Bolsonaro (PL-SC), dois aliados no mesmo campo político, trocaram farpas públicas nas redes sociais nesta sexta-feira (24). O imbróglio começou quando Nikolas rebateu uma provocação de internauta sobre troca de camisa em vídeo, ameaçando “mandar emenda para internar vocês num hospício”. Jair Renan entrou na conversa com um lacônico “Galvão?”. Nikolas tirou print da interação e encerrou: “Se juntar a capacidade cognitiva dessa dupla não alcança a de uma toupeira cega”. A rusga entre correligionários chamou atenção nas redes e deixou o episódio para o registro do dia.

Extinção
A Procuradoria Regional Eleitoral opinou pela extinção do processo sem julgamento do mérito na representação eleitoral movida pelo PT contra a prefeita de Canoinhas, Juliana Maciel Hoppe (PL), pré-candidata a deputada estadual. O procurador Claudio Valentim Cristani apontou dois obstáculos processuais: o TRE-SC seria incompetente para julgar o caso, já que as declarações da prefeita – apoio a Flávio Bolsonaro à presidência e críticas a Lula – são de âmbito federal, competência do TSE. Além disso, o PT não teria legitimidade para agir sozinho, pois integra a Federação Brasil da Esperança junto ao PCdoB e PV, devendo atuar de forma unificada.

Palavras mágicas
Para a Procuradoria, o vídeo publicado pela prefeita no Facebook, no qual ela grita “Fora Lula”, “Fora PT”, “Fora Moraes” e “Anistia já”, não configura propaganda eleitoral antecipada, pois não contém pedido explícito de voto nem uso das chamadas “palavras mágicas” equiparadas a esse pedido pela jurisprudência eleitoral. As expressões utilizadas, segundo o parecer, inserem-se no campo da crítica política e da liberdade de expressão constitucionalmente assegurada. O processo será analisado pelo Pleno do TRE-SC, na próxima quarta-feira (29).





