Viagem que expõe o dilema do bolsonarismo
A viagem de Flávio Bolsonaro (PL) e a família aos Estados Unidos ganhou dimensão política porque ocorreu menos de 24 horas depois de o senador afirmar que permaneceria no Brasil para organizar a oposição a Lula (PT). Em meio à tensão com a determinação do ministro Alexandre de Moraes, do STF (Supremo Tribunal Federal), para entregar os passaportes à Polícia Federal, Flávio mudou os planos e deixou o país. Até então, não havia apresentado publicamente uma explicação detalhada para a viagem.
Há também um componente jurídico nessa decisão. Como senador, Flávio tem imunidades parlamentares, e a Constituição estabelece restrições à prisão de congressistas, ressalvadas as hipóteses previstas no texto constitucional. Isso, porém, não significa imunidade absoluta nem permite concluir, sem examinar a decisão judicial e seus fundamentos, que ele estaria livre de qualquer medida. Politicamente, a viagem pode ser interpretada como uma forma de evitar o confronto imediato com um cenário que o próprio senador demonstrava considerar preocupante.
A mudança de posição surpreendeu aliados. Rogério Marinho, coordenador da campanha presidencial, afirmou que não sabia do paradeiro de Flávio e que a última comunicação havia ocorrido por mensagem, pela manhã. O episódio expõe uma contradição: quem se apresentava como responsável por liderar a oposição passou a enfrentar questionamentos sobre a própria decisão de deixar o país.
A derrota para Lula, por cerca de 4,4 milhões de votos, já havia colocado o bolsonarismo diante de uma encruzilhada. O PL mantém força no Congresso e aliados em governos estaduais, mas a disputa pela liderança da direita pode ganhar intensidade.
A família Bolsonaro continua ocupando um lugar central na direita brasileira, mas a derrota eleitoral pode abrir espaço para novas articulações e lideranças. Michelle Bolsonaro, Tarcísio de Freitas e outros nomes de destaque têm condições de ampliar sua participação nesse campo político. O desafio será conciliar projetos e interesses diferentes, preservando a unidade necessária para a construção de uma oposição consistente ao governo Lula.
O bolsonarismo chega ao pós-eleição mantendo força institucional, com representação no Congresso e aliados em governos estaduais. Ao mesmo tempo, terá de avaliar os caminhos para os próximos anos: manter a família Bolsonaro como principal eixo de articulação ou ampliar o diálogo com outras lideranças da direita. A viagem de Flávio, por si só, não define o futuro do movimento, mas acrescenta um elemento a esse debate.
Mais do que superar a derrota, o desafio será transformar a presença política conquistada em uma estratégia capaz de reunir diferentes setores e manter o grupo competitivo no cenário nacional.

Preparação
Os deputados estaduais eleitos para a legislatura que começa em fevereiro de 2027 foram recebidos ontem pelo presidente da Alesc, Julio Garcia (PSD). No encontro, o chefe de Gabinete da Presidência, Carlos Eduardo de Souza Neves, apresentou o cronograma para a posse e orientou os parlamentares sobre os procedimentos administrativos e legislativos, a capacitação e a nomeação de assessores. A iniciativa marca o início da preparação dos novos deputados para o exercício do mandato.

Êxito das eleições
O Coptrel (Colégio de Presidentes dos Tribunais Regionais Eleitorais) divulgou nota destacando o êxito das Eleições Gerais de 2026, com ênfase na agilidade da apuração, na transparência e na segurança das urnas eletrônicas. O documento, assinado pelo presidente do Coptrel e do TRE-SC, desembargador Carlos Roberto da Silva, também ressalta a atuação dos tribunais regionais diante de dificuldades logísticas e climáticas e a liderança do ministro Nunes Marques à frente do TSE.

Sem manifestação
O governador Jorginho Mello (PL), presidente estadual do partido, ainda não se manifestou publicamente sobre as notícias envolvendo a saída de Flávio Bolsonaro do país. Aliado do senador, Jorginho participou da campanha presidencial e esteve ao lado dele — principalmente, na reta final da disputa. Entre os parlamentares catarinenses do PL, poucos também se manifestaram publicamente sobre o assunto. A movimentação repercute no cenário político nacional e abre novos desdobramentos para o partido após o segundo turno.

Revezamento
A bancada do PL na Alesc, que será formada por 16 deputados estaduais, a partir de 2027, discutiu e definiu, em reunião ontem, uma proposta de revezamento no comando da Casa no primeiro biênio. Pelo entendimento apresentado, Camilo Martins seria o presidente inicialmente, com Ana Campagnolo na vice-presidência. Camilo permaneceria no cargo por um ano e meio e, depois, renunciaria para que Ana assumisse a presidência pelo período restante. A proposta, no entanto, não teve unanimidade entre os parlamentares presentes, e alguns integrantes manifestaram discordância durante a reunião. A composição da Mesa deverá ser levada ao governador Jorginho Mello.

Articulação
A proposta do PL de concentrar o comando da Mesa no primeiro biênio não encerrou as articulações em torno de outros nomes. O deputado Fernando Krelling (MDB) continua trabalhando pela possibilidade de assumir a presidência e, segundo interlocutores da Alesc, não dá sinais de que pretende recuar da disputa. O movimento mantém em aberto as negociações para a composição da Mesa, que dependerão também da capacidade de articulação do governador Jorginho Mello para construir um entendimento entre os partidos.

Resistência
A proposta do PL de concentrar a presidência e a primeira vice-presidência da Alesc nas mãos do partido enfrenta questionamentos políticos e regimentais. A ideia é vista por interlocutores como desproporcional na composição da Mesa e há dúvidas sobre a compatibilidade com o regimento interno da Casa, inclusive quanto à possibilidade de questionamentos jurídicos. Com a campanha eleitoral encerrada, caberá ao governador Jorginho Mello assumir o papel de articulador político e conduzir as conversas para definir a composição da Mesa, buscando acomodar os interesses da bancada e dos demais partidos.







