A batalha do detergente
Um lote de produtos de limpeza. Uma notificação técnica da Anvisa. O caso começou como procedimento de rotina e terminou como mais um capítulo da polarização brasileira, desta vez protagonizado por um item de limpeza doméstica. A Anvisa identificou risco de contaminação por Pseudomonas aeruginosa em lotes específicos do detergente Ypê e determinou o recall. A medida segue protocolo aplicado a qualquer produto que apresente desvio de qualidade.
Do ponto de vista oficial, a medida seguiu o protocolo padrão da agência para casos de possível risco ao consumidor. O recolhimento atingiu lotes determinados e foi apresentado como ação preventiva. Ao mesmo tempo, a repercussão trouxe outro elemento para a discussão: a lembrança de que quatro integrantes da família Beira, controladora da Ypê, doaram juntos R$ 1,5 milhão à campanha do ex-presidente Bolsonaro à reeleição em 2022.
A associação foi suficiente para alimentar interpretações políticas de ambos os lados. Enquanto parte dos apoiadores de Bolsonaro levantou suspeitas sobre eventual perseguição institucional, críticos reagiram afirmando que uma questão sanitária estava sendo transformada em disputa ideológica. Em poucas horas, o assunto deixou de ser apenas um recall de produtos e passou a refletir o ambiente de polarização que marca o debate público brasileiro.
Nas redes e grupos de mensagens ligados à direita brasileira, a convocação para comprar o produto como ato de apoio se espalhou rapidamente. A Ypê, marca popular e acessível, virou símbolo overnight. Não é a primeira vez que uma marca é arrastada para o campo ideológico. A Havaianas viveu episódio semelhante quando adotou posicionamentos associados à esquerda e enfrentou boicote organizado do campo conservador.
O caso Ypê mostra com clareza que, no Brasil atual, qualquer fato que toque simultaneamente nos campos empresarial e político será imediatamente absorvido pela polarização – e dificilmente sairá dela com a complexidade que merecia. No Brasil de 2026, até o detergente já precisa escolher lado na pia.

Ex-prefeito
O ex-prefeito de Imaruí, Patrick Corrêa, condenado a mais de 19 anos de prisão pela Operação Mensageiro, conseguiu levar seu caso ao STJ, mas a pena continua valendo. Ele foi preso por participar do maior esquema de propinas a prefeitos da história de Santa Catarina, que resultou na prisão de ao menos 16 gestores e ex-gestores municipais. O recurso foi aceito porque o STJ vai julgar, em breve, uma questão que afeta o cálculo de penas em casos como esse. A condenação por corrupção, organização criminosa e fraude em licitações permanece em vigor até lá.

Crescimento
A campanha do pré-candidato a presidente da República, Flávio Bolsonaro (PL-RJ), enxerga Santa Catarina como um Estado que não precisa ser conquistado, precisa ser mantido. A meta é replicar os percentuais históricos do pai, Jair Bolsonaro, no território catarinense – terreno considerado consolidado pelo campo bolsonarista. Internamente, o governador Jorginho Mello (PL) tem externado que gostaria de “entregar” a Flavio dez pontos a mais nas urnas: a ambição é passar de 70% para 80% dos votos no Estado. Se a promessa se confirmar, Santa Catarina se tornaria o maior palanque individual de Flávio Bolsonaro no país.

Lei da Sharia
O deputado estadual Alex Brasil (PL) apresentou um projeto na Alesc para impedir a promoção e aplicação de práticas ligadas à chamada Lei da Sharia – conjunto de princípios religiosos e jurídicos do Islã baseado no Alcorão e em muitos países islâmicos, que influencia costumes, regras familiares e aspectos da vida civil – no Estado. A proposta prevê restrições a contratos públicos e ao uso de recursos públicos relacionados ao tema. O texto argumenta que determinadas interpretações da Sharia podem entrar em conflito com direitos garantidos pela Constituição brasileira. O projeto também ressalta que não pretende limitar a liberdade religiosa. A iniciativa deve ampliar o debate sobre liberdade de crença, soberania jurídica e direitos fundamentais em Santa Catarina.

Marqueteiro
Nos bastidores da entrevista de Flávio Bolsonaro ao Grupo ND, uma pessoa parecia mais preocupada com o roteiro e as respostas, e não era exatamente a equipe de comunicação. O governador Jorginho Mello acompanhou a entrevista em clima de “marqueteiro raiz”, acompanhando cada detalhe da gravação – e até segurando folhas com anotações enquanto observava atentamente a conversa. Nos corredores, a cena gerou brincadeiras sobre uma possível “nova função” do governador.

Irrigação agrícola
O TJSC suspendeu uma resolução do Consema (Conselho Estadual do Meio Ambiente) que havia dispensado o licenciamento ambiental para irrigação agrícola por inundação e construção de canais de irrigação no Estado. A decisão liminar atende a uma ação do Ministério Público de Santa Catarina, que apontou ausência de fundamentação técnica para a mudança e risco de retrocesso ambiental. O Consema e o governador do Estado foram notificados e têm 30 dias para prestar informações ao tribunal. O caso segue para manifestação da Procuradoria-Geral do Estado antes de uma decisão definitiva.

Pedido de desculpas
Em entrevista ao portal ND Mais, a deputada estadual Ana Campagnolo (PL) comentou sobre o pedido de desculpas de Carlos Bolsonaro pelo tom pessoal que tomou o impasse entre os dois. “Ele teve um gesto muito bacana de reconhecer que ali no início houve uma troca de farpas que foi muito pessoal e que não precisava ter acontecido”, disse a deputada. Ana afirmou que nunca teve problemas pessoais com o filho do ex-presidente e que as divergências eram apenas políticas: “Sou uma grande apoiadora do presidente Bolsonaro e apenas tínhamos divergências políticas e não pessoais”.

Fim do impasse
O impasse teve origem na movimentação de Carlos Bolsonaro para disputar o Senado por Santa Catarina. A pré-candidatura gerou desconforto entre lideranças locais do PL e abriu uma disputa interna que envolveu também a deputada federal Caroline de Toni e o senador Esperidião Amin. As trocas de farpas públicas expuseram as tensões dentro do campo bolsonarista no Estado e colocaram em xeque a unidade do partido na corrida eleitoral.








