Sete de setembro: dois palcos, uma eleição
As manifestações deste 7 de setembro não foram gigantescas. Não repetiram as maiores mobilizações políticas que o país já viu e seria exagero tentar vendê-las dessa maneira. Mas ignorar o significado eleitoral das ruas ontem também seria um erro. A data cívica definitivamente entrou no calendário político e eleitoral da direita brasileira.
Nos últimos anos, a data deixou de ser apenas uma celebração cívica e passou a funcionar como uma espécie de demonstração periódica de força desse campo político. É um dia em que a direita consegue mobilizar militância, produzir imagens, ocupar as redes sociais e, principalmente, reforçar entre seus eleitores uma sensação de pertencimento e identidade.
E o 7 de setembro deste ano teve um combustível adicional: o ministro do STF, Alexandre de Moraes. A forte rejeição ao ministro dentro do eleitorado de direita ajudou a dar às manifestações um eixo claro. As críticas ao STF e, especialmente a Moraes, funcionaram como elemento de unidade entre diferentes grupos da direita.
Esse talvez seja o principal efeito político do dia. Quando a eleição entra na reta final, mobilização importa tanto quanto tamanho. Uma base politicamente ativada conversa mais, compartilha mais conteúdo, defende seus candidatos e tende a participar mais intensamente da campanha.
A oposição encontrou na crise envolvendo o Supremo um poderoso instrumento de mobilização e voltou a colocar o impeachment de Moraes no centro da agenda. A estratégia é clara: transformar a insatisfação com decisões e condutas atribuídas ao STF em combustível eleitoral e aproximar, no discurso, a imagem de Moraes à de Lula. O ato demonstrou que o bolsonarismo continua capaz de mobilizar as ruas.
O governo fez o movimento inverso. Em vez de responder aos ataques, Lula preferiu falar como presidente de Estado. No pronunciamento em cadeia nacional, evitou citar diretamente a crise no STF e concentrou o discurso em soberania, riquezas nacionais, fronteiras e interesses estrangeiros. No desfile, a presença conjunta de Lula com os chefes dos demais Poderes reforçou a imagem de normalidade institucional que o Planalto pretende projetar.
Foi, portanto, uma disputa não apenas por público, mas por narrativa. A oposição tentou transformar o feriado em demonstração de força contra governo e Supremo. O Planalto, por sua vez, procurou impedir que a data fosse capturada pela campanha eleitoral e respondeu ocupando o espaço simbólico de chefe de Estado.
Não significa que as manifestações mudem, sozinhas, uma eleição. Tampouco que o tamanho das ruas possa ser convertido diretamente em percentual nas urnas. Mas elas ajudam a definir o assunto da campanha, energizam uma base que já estava mobilizada e obrigam adversários a reagir à pauta escolhida pela direita.
O 7 de setembro termina, portanto, menos como uma demonstração gigantesca de público e mais como uma demonstração de capacidade política.

Lula em SC
A visita de Lula a Santa Catarina, antecipada por esta coluna no mês passado, está confirmada para o próximo domingo (13). A informação é que o presidente deve chegar ao Estado na noite de sábado (12) e, antes do ato público, a agenda prevê reuniões com lideranças partidárias. A vinda é tratada como um dos principais movimentos da campanha de Gelson Merisio (PSB) na disputa pelo governo. Merisio havia informado que pretendia trazer Lula mais perto da reta decisiva e chegou a citar o dia 20 como possibilidade. A data foi antecipada em uma semana. A estratégia é clara: reforçar a presença de Lula na campanha e nacionalizar a disputa pelo governo catarinense.

Pecado
Durante a sabatina na NDTV, Gelson Merisio (PSB) criticou o que chamou de “processo verticalizado ideológico” em Santa Catarina e defendeu o direito de discutir a atuação do presidente Lula no Estado. “Aqui parece que é pecado falar do presidente Lula”, afirmou. O candidato disse que é preciso respeitar quem pensa diferente e avaliar, além do governo estadual, as entregas do governo federal em Santa Catarina. “Por isso sou candidato para poder falar do presidente Lula sem nenhum preconceito”, resumiu.

Código de Ética
O ex-presidente do STF, Carlos Ayres Britto, defendeu a criação de um Código de Ética para estabelecer limites à atuação dos ministros e permitir que a própria Corte fiscalize seus integrantes. Em entrevista ao O Globo, publicada ontem, Britto apoiou a proposta do atual presidente do Supremo, Edson Fachin, e questionou: “Quem controla o Supremo?”. Para ele, o código permitiria ao tribunal “cortar na própria carne” quando necessário.

Vaquinha
O financiamento coletivo já movimentou R$ 375,9 mil entre candidatos de Santa Catarina, segundo os dados da prestação de contas no TSE até o fim da manhã de ontem. Ao todo, 52 candidaturas aparecem com arrecadação nessa modalidade. O valor médio por candidato é de R$ 7.200, mas a distribuição está longe de ser equilibrada. A maior arrecadação é de Mario Motta (PSD), candidato a deputado estadual, com R$ 50,9 mil. Na sequência, aparece Leonel Camasão (Psol), também candidato à Assembleia, com R$ 41,3 mil. O levantamento mostra que o financiamento coletivo ainda representa uma parcela pequena das campanhas, porém revela quais candidaturas têm maior capacidade de mobilização financeira entre apoiadores.

Quem puxa a fila
A lista dos maiores arrecadadores de financiamento coletivo em Santa Catarina tem uma mistura curiosa de partidos e perfis. Depois de Mario Motta e Camasão, aparecem Felipe Barcellos (Missão), com R$ 28,7 mil; Lucas Gotardo (Novo), com R$ 24,2 mil; e Rodrigo Livramento (Novo), com R$ 22,7 mil. Os dez primeiros concentram 61,6% de todo o dinheiro arrecadado na modalidade. O dado mostra que a vaquinha está longe de ser pulverizada: uma parcela pequena das candidaturas reúne a maior parte dos recursos. Entre os dez, seis disputam vaga de deputado estadual e quatro concorrem à Câmara Federal.





