O crime organizado bate à porta da política; Malha ferroviária; Condenação; Fogo amigo; entre outros destaques

O crime organizado bate à porta da política

A Operação Catilina, deflagrada ontem pelo Ministério Público de Santa Catarina, deveria provocar uma reflexão muito além dos limites da cidade de Itapoá. Se as suspeitas forem confirmadas, o Estado estará diante de um dos maiores riscos que uma democracia pode enfrentar: a tentativa de transformar o crime organizado em agente político.

Não se trata apenas de tráfico de drogas, domínio territorial ou disputa entre facções. O que está em jogo é algo ainda mais grave. É a possibilidade de organizações criminosas entenderem que conquistar espaço nas instituições é mais eficiente do que enfrentá-las. Quando o crime passa a influenciar eleições, intimidar eleitores, escolher candidatos ou criar pontes com agentes públicos e interesses privados, como demonstraram as investigações iniciais, a democracia deixa de ser apenas ameaçada. Ela começa a ser corroída por dentro.

O Brasil conhece esse roteiro. No Rio de Janeiro, o avanço de facções e milícias não aconteceu da noite para o dia. Foi um processo silencioso, alimentado pela omissão, pela conivência e, em alguns casos, pela cooptação da política. 

Em diferentes momentos, investigações também revelaram aproximação entre organizações criminosas e o ambiente político em outros estados, mostrando que essa estratégia faz parte de um projeto de expansão de poder.

Santa Catarina não pode alimentar a ilusão de que está imune a esse processo. O Estado cresceu, tornou-se um dos principais polos logísticos do país, concentra portos estratégicos, movimenta bilhões de reais e, justamente por isso, tornou-se mais atraente para organizações criminosas. O próximo passo dessas estruturas, se não forem contidas, é buscar influência onde as decisões são tomadas.

É exatamente por isso que a Operação Catilina merece atenção. Porque o simples surgimento de indícios de uma tentativa de infiltração política já é motivo suficiente para acender o sinal vermelho.

O maior erro seria tratar esse episódio como um fato isolado. O crime organizado ocupa espaços gradualmente, financia influência, compra silêncio, intimida adversários e procura transformar poder econômico ilegal em poder político.  Santa Catarina ainda está em tempo de impedir que essa porta seja aberta. Mas isso exige uma reação firme das instituições, da classe política e da sociedade. Não basta prender criminosos; é preciso impedir que eles encontrem na política um caminho para legitimar seus interesses.

Porque quando o crime organizado começa a disputar poder nas urnas, quem perde não é apenas um partido ou um candidato. Quem perde é o Estado de Direito. 

Condenação

O TJSC condenou o ex-prefeito de Três Barras, Eloi José Quege, por utilizar indevidamente terrenos públicos destinados à implantação de uma área industrial para beneficiar particulares durante seu mandato. O relator, desembargador Júlio César Machado Ferreira de Melo, concluiu que ficou caracterizado um “padrão de atuação administrativa ilícita”, com doações informais de lotes, autorização para construções e fornecimento de água e energia sem respaldo legal. A denúncia do Ministério Público apontou que as doações teriam ocorrido entre 2013 e 2016, beneficiando ao menos cinco famílias e até um então secretário municipal, em uma área desapropriada para implantação de um distrito industrial.

Defesa

Durante o processo, Eloi Quege negou ter realizado doações irregulares. Sustentou que parte das áreas era objeto de disputas fundiárias envolvendo antigas cessões da família Mussi e afirmou que jamais autorizou doações fora das hipóteses previstas em lei. Também alegou que as ocupações decorreram de invasões promovidas por terceiros e que a prefeitura adotou medidas para impedir novas ocupações. Mesmo assim, o TJSC entendeu que o conjunto de provas confirmou a responsabilidade do ex-prefeito e determinou sua condenação, além da inabilitação por cinco anos para o exercício de cargo ou função pública. A decisão ainda é passível de recurso. 

Malha ferroviária

O CODESUL, formado por Santa Catarina, Paraná, Rio Grande do Sul e Mato Grosso do Sul, reforçará amanhã, durante a audiência pública da ANTT na sede da FIESC, em Florianópolis, sua posição contrária à renovação da concessão da Malha Sul nos moldes propostos pelo Governo Federal. O bloco defende a interrupção do processo e a construção de um novo modelo, com investimentos capazes de recuperar e expandir a infraestrutura ferroviária da região. A mobilização conjunta busca dar peso político à pressão dos estados por uma nova política para o setor.

Fogo amigo

A tensão no PL de Blumenau ganhou um novo capítulo. O deputado Ivan Naatz decidiu elevar o confronto com o ex-prefeito Mário Hildebrandt ao defender que a direção estadual discuta sua expulsão do partido. O movimento amplia um embate que já vinha sendo alimentado por críticas públicas à gestão do ex-prefeito, enquanto Hildebrandt reage afirmando que não é investigado pelo Ministério Público e mantém sua pré-campanha a deputado estadual. A disputa, que antes era apenas eleitoral, agora também passa pelo controle do espaço político dentro da legenda.

Decisões

O Pleno do TRE-SC teve decisões distintas em duas ações por propaganda eleitoral antecipada. Na relatada pelo desembargador Sérgio Francisco Carlos Graziano Sobrinho, a votação terminou por 4 votos a 3, e a Corte julgou improcedente a representação do PL contra o vereador Leonel Camasão (PSOL), que distribuiu leques com a frase “Lula Presidente e Camasão na Alesc” durante o Carnaval. Já por unanimidade, o Tribunal julgou procedente a ação contra Bruno Souza (PL) pelo uso de outdoors em Florianópolis, mantendo o entendimento de que a publicidade violou a legislação eleitoral. Esta última de relatoria do desembargador Victor Laus.

Na batida da política

Os tempos mudaram. O velho carro de som perdeu espaço para o vídeo de 30 segundos. Enquanto Lula aposta no rap para dialogar com os mais jovens, Flávio Bolsonaro responde com funk e coreografia. No marketing eleitoral de 2026, o palco principal não é mais a praça pública, mas a tela do celular.