Racha no PL expõe disputa por espaço
A direita brasileira vive um momento de ebulição política, e o epicentro desse terremoto chama-se Partido Liberal. Desde a prisão do ex-presidente Jair Bolsonaro, o PL se transformou em um campo de disputas internas que vão muito além de divergências pontuais – trata-se de uma luta pelo controle simbólico e prático do bolsonarismo. O embate entre os deputados federais Eduardo Bolsonaro (SP) e Nikolas Ferreira (MG) expõe fissuras que, se aprofundadas, podem reproduzir a mesma fragmentação que marcou a antiga cisão entre PL e PSL, abrindo espaço para novos rearranjos de poder.
O primeiro ponto central é o vazio de liderança prática, mas não simbólica. Bolsonaro, mesmo afastado do cenário político por imposições judiciais, mantém forte influência sobre sua base e sobre as decisões partidárias. É em torno de seu nome que o PL ainda se estrutura, e qualquer tentativa de afastamento completo parece inviável.
Nesse cenário, Nikolas Ferreira emergiu como o rosto mais ativo do PL, com apoio explícito do presidente nacional do partido, Valdemar Costa Neto, e estrutura financeira para percorrer o país na montagem de nominatas. O protagonismo do deputado mineiro, jovem e midiático, agradou parte da base, mas irritou aliados históricos da família Bolsonaro.
Eduardo Bolsonaro viu o movimento de Nikolas como um projeto de emancipação – e reagiu com força. Ao acusar o colega de “querer se livrar do Bolsonaro”, Eduardo não apenas defendeu o pai, mas também sinalizou a tentativa de preservar a hegemonia familiar sobre o eleitorado da direita.
O segundo ponto é o reposicionamento estratégico da direita para 2026. Enquanto Eduardo dispara críticas ao governador Tarcísio de Freitas, nome viável e competitivo no campo conservador, Nikolas constrói pontes com novos atores e busca afastar a pauta bolsonarista das limitações impostas pela inelegibilidade do ex-presidente. O resultado é uma direita dividida entre a fidelidade a Jair Bolsonaro e a busca por sobrevida política.
O racha interno é, portanto, menos sobre ruptura e mais sobre quem herdará o protagonismo de um líder ainda ativo no imaginário conservador. Enquanto Nikolas aposta no discurso de renovação e Eduardo defende a fidelidade ao núcleo original, o bolsonarismo permanece como o denominador comum, mesmo em meio às disputas. O futuro da direita passa, inevitavelmente, por esse equilíbrio entre sucessão e lealdade, duas faces de uma mesma força política que ainda gira em torno do nome Bolsonaro.

Três alternativas
O presidente nacional do PSD, Gilberto Kassab, usou as redes sociais para reafirmar que o partido mantém três alternativas para a disputa presidencial de 2026: Tarcísio de Freitas (Republicanos-SP), Ratinho Júnior (PR) e Eduardo Leite (RS). A publicação foi interpretada como uma resposta a rumores de que Ratinho Júnior teria desistido da corrida ao Planalto, após suposta conversa entre seu pai, o apresentador Ratinho, e o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). O comunicador, porém, negou o contato com Lula e classificou as informações como fake news, afirmando que não interfere nas decisões políticas do filho.

Chapa pura
A deputada estadual Ana Campagnolo (PL) voltou a afirmar que existe um acordo político firmado há mais de um ano dentro do partido sobre a composição da chapa majoritária para 2026 e criticou colegas que utilizam as redes sociais pregando a formação de “chapa pura” no PL: “Eles são simplesmente demagogos, são mentirosos, estão mentindo para a população”. Ana está numa troca de farpas que envolve os filhos de Jair Bolsonaro. A possível candidatura de Carlos provocou tensão no partido, especialmente pela perda de espaço da deputada federal Caroline De Toni, que também pleiteia a vaga.

Injúria racial
O TJSC manteve a condenação de um homem de 72 anos pelo crime de injúria racial, ocorrido em 2021, em Blumenau. Segundo o processo, ele ofendeu um trabalhador com expressões como “macaco”, “preto folgado” e “neguinho”, além de deixar um cacho de bananas próximo ao veículo da vítima. A defesa recorreu, alegando falta de provas e parcialidade das testemunhas. O relator rejeitou os argumentos, destacando a consistência dos depoimentos. A decisão reafirma que o crime é imprescritível e considerou a presença de várias pessoas como agravante. A pena foi fixada em um ano e quatro meses de reclusão em regime aberto, além de multa. O relator foi o desembargador substituto Luis Francisco Delpizzo Miranda.

Disciplina e unidade
O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) publicou um vídeo nas redes sociais defendendo a candidatura do irmão Carlos ao Senado por Santa Catarina, enviando um recado direto à deputada Ana Campagnolo (PL). Ele afirmou que questionar decisões do ex-presidente Jair Bolsonaro “enfraquece o exército da direita”. Flávio elogiou Campagnolo, mas pediu “disciplina e unidade” dentro do PL catarinense. A fala ocorre em meio à crise interna do partido.

Sem o MDB
Durante uma transmissão ao vivo, as deputadas federal Júlia Zanatta e estadual Ana Campagnolo, ambas do PL, expuseram novas divergências internas no partido em Santa Catarina. Questionada sobre uma possível aliança com o MDB para 2026, Campagnolo foi enfática: “Não fui consultada e não concordo que o MDB seja vice.” A resposta surpreendeu por contrariar o governador Jorginho Mello, articulador da aproximação entre as siglas. O plano prevê ceder a vice e o Senado a Esperidião Amin (PP). A fala evidencia o racha crescente no PL catarinense e aumenta a pressão sobre Caroline De Toni, que avalia deixar o partido.

Fim da Rota
Em meio a uma crise interna, o PL catarinense encerrou nesta sexta-feira (7), em Blumenau, o ciclo estadual do Rota 22, projeto itinerante que percorreu todas as regiões de Santa Catarina mobilizando mais de 10 mil pessoas. O seminário de encerramento contou com a presença do senador Rogério Marinho, idealizador da iniciativa, e do governador Jorginho Mello. Criado para fortalecer as bases e ampliar o diálogo interno, o Rota 22 se destacou pela integração entre encontros presenciais e participação digital.






