Alesc sob o impacto da polêmica das cotas
O ano legislativo em Santa Catarina começa sob polêmica. A retomada dos trabalhos da Assembleia Legislativa de Santa Catarina, marcada pela leitura da Mensagem Anual do governador Jorginho Mello, traz no pano de fundo um tema que tende a dominar as primeiras sessões: a lei que extinguiu a reserva de vagas para negros e indígenas nas instituições estaduais de ensino superior. A matéria, aprovada no fim do ano passado, inaugura o ano como um exemplo claro de como o debate político e o jurídico segue entrelaçado no Estado.
A chamada “Lei das Cotas” não foi uma iniciativa isolada nem improvisada. Ela passou pelo plenário, obteve maioria e foi sancionada pelo Executivo com um discurso alinhado à meritocracia e à ampliação do acesso por critérios socioeconômicos. Ainda assim, antes mesmo de produzir efeitos concretos, teve sua aplicação suspensa pelo Tribunal de Justiça de Santa Catarina. Paralelamente, uma Ação Direta de Inconstitucionalidade tramita no Supremo Tribunal Federal, o que garante que o assunto seguirá vivo no noticiário e, inevitavelmente, no plenário da Alesc.
Não há como fugir do tema. Mesmo que a suspensão judicial limite a aplicação prática da lei, o debate político está dado. Deputados devem usar as primeiras sessões ordinárias para defender posições, cobrar explicações e reforçar discursos já conhecidos. Em um Parlamento majoritariamente conservador, a tendência é de defesa da prerrogativa legislativa e da legitimidade de uma decisão tomada por representantes eleitos. A judicialização, nesse contexto, passa a ser tratada mais como consequência do embate político do que como surpresa institucional.
O calendário eleitoral reforça esse cenário. 2026 é um ano curto para o Legislativo. Sessões menos frequentes, comissões funcionando em ritmo reduzido e uma pauta naturalmente mais seletiva fazem com que temas de alto impacto simbólico ganhem prioridade. A Lei das Cotas reúne todos esses elementos: envolve valores, identidade política e uma clara divisão ideológica. É o tipo de assunto que rende discurso, posicionamento público e engajamento de base – algo especialmente valorizado em ano pré-eleitoral.
Santa Catarina já viveu situações semelhantes. Outras leis aprovadas pela Alesc, especialmente em temas educacionais e culturais, acabaram suspensas ou derrubadas no Judiciário. Ainda assim, isso não impediu o Parlamento de continuar pautando matérias alinhadas ao perfil do eleitor catarinense.
A abertura do ano legislativo, portanto, não começa neutra. Inicia marcada por um tema sensível, que deve ocupar espaço logo nas primeiras sessões e servir de termômetro para o ambiente político deste ano. Com pouco tempo no relógio e muita disputa no horizonte, a Alesc dá sinais de que o debate será intenso desde o primeiro dia.

Sinalização
A aliança construída entre PL e Novo em Santa Catarina passou a ser tratada, nos bastidores, como um modelo possível de ampliação nacional. Pré-candidato a vice na chapa do governador Jorginho Mello (PL), o prefeito de Joinville, Adriano Silva (Novo), aposta que esse arranjo pode se repetir em outros Estados. A avaliação é de que a soma das duas siglas fortalece o campo da direita para este ano. O exemplo catarinense e a experiência do Rio Grande do Sul entram no radar como referências.

Bola fora
O advogado catarinense Renato Boabaid passou a ser alvo de ataques e insinuações como se tivesse qualquer ligação com o chamado Caso Orelha. O ataque chegou ao ponto de envolver supostamente “seu filho”. Mas o detalhe mais curioso, e que desmonta completamente a história, é simples: Renato não tem filhos. Tudo isso aconteceu apenas por coincidência de sobrenome, sem qualquer checagem ou responsabilidade. É mais uma prova de como a desinformação e o linchamento virtual podem atingir inocentes de forma cruel e completamente sem fundamento.

Reflexo nacional
Em Brasília, o PL avalia compor com o governador de Minas Gerais, Romeu Zema (Novo), como vice na chapa presidencial do senador Flávio Bolsonaro (PL). A hipótese surge após o PSD avançar sobre o governador de Goiás, Ronaldo Caiado, e sinalizar candidatura própria. O presidente do PL, Valdemar Costa Neto, elogiou Zema, mas negou tratativas formais. Disse apenas que o partido trabalha “em todas as frentes” para montar a melhor chapa.

Em análise
Uma granja de suínos que havia recorrido à Justiça para funcionar a menos de 300 metros de uma das principais vinícolas de Santa Catarina agora protocolou um pedido no IMA (Instituto do Meio Ambiente do Estado) para iniciar suas atividades. Caso a granja entre em funcionamento, existe um grande risco de Santa Catarina perder um dos importantes equipamentos turísticos e culturais: um museu e uma vinícola histórica, aberta à visitação, localizada em Tangará, no Meio-Oeste. O município, inclusive, é o maior produtor de uvas do Estado, e a vitivinicultura é parte essencial de sua economia. O que surpreende é que o IMA aparentemente não tenha se atentado para a proximidade entre os dois empreendimentos.
Encontro plural
O aniversário de 60 anos de Gelson Merisio transformou-se em um dos encontros políticos mais plurais do ano na Grande Florianópolis. O jantar no restaurante Folha reuniu mais de 200 convidados de diferentes correntes ideológicas. Chamou atenção a presença do empresário Wesley Batista, dono da gigante JBS, que veio direto de Nova York ao lado do anfitrião.

Trânsito aberto
Entre os convidados, os ex-governadores Raimundo Colombo, Paulo Bauer, Eduardo Pinho Moreira e Paulo Afonso Vieira. O prefeito de Blumenau, Egídio Ferrari (PL), e o ex-deputado federal João Paulo Kleinübing (PL) também estiveram presentes, além do presidente do TJSC, Francisco Oliveira Neto, e o ex-ministro do STJ, Jorge Mussi. Entre os petistas, o deputado estadual Fabiano da Luz, o presidente do Sebrae, Décio Lima, e o deputado federal Pedro Uczai; do MDB, Carlos Chiodini e Dário Berger. Deputados, ex-prefeitos, ex-deputados e ex-secretários de Estado completaram o mosaico. Todos recepcionados por Merisio e Márcia. Nos bastidores, a avaliação foi de que o aniversariante segue com trânsito aberto entre diferentes forças.



