Na noite de segunda-feira (9), a Frente Parlamentar do Futebol Catarinense realizou sua primeira reunião para discutir medidas voltadas à segurança nos estádios. O encontro aconteceu no Plenarinho Deputado Paulo Stuart Wright e foi conduzido pelo deputado estadual Mário Motta (PSD), coordenador da frente parlamentar. Participaram representantes da segurança pública, do Ministério Público, da Federação Catarinense de Futebol (FCF), clubes e torcidas organizadas.
Um dos principais encaminhamentos da reunião foi a proposta de criação de um grupo de trabalho que deverá discutir a renovação do Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) firmado em 2008. O acordo, estabelecido pelo Ministério Público de Santa Catarina (MPSC) em parceria com a Polícia Militar, a FCF e a Associação de Clubes, regulamenta a participação das torcidas organizadas nas partidas de futebol. Representantes das torcidas defendem que as punições em casos de confusão sejam direcionadas apenas aos envolvidos nos incidentes, e não a todos os integrantes das organizadas, como ocorre atualmente quando grupos inteiros são proibidos de frequentar os estádios por determinado período.
A segurança nos jogos tem sido motivo de preocupação entre autoridades e organizadores de eventos esportivos, principalmente diante de episódios recentes de violência entre torcedores. O subcomandante da Polícia Militar de Santa Catarina, coronel Jofrey Santos da Silva, apresentou um panorama das ações preventivas adotadas pela corporação. Segundo ele, o planejamento envolve desde inspeções nos estádios e definição de efetivo policial adequado até organização do trânsito, acompanhamento das torcidas e monitoramento antes, durante e após as partidas.
Mesmo com planejamento, situações de conflito ainda podem ocorrer. Um exemplo recente foi o clássico entre Figueirense e Avaí, em Florianópolis, quando houve brigas entre torcedores nas proximidades do estádio Orlando Scarpelli. Outro episódio citado foi durante partida do Campeonato Catarinense entre Brusque e Chapecoense, quando um torcedor simulou a queda de um avião, em referência à tragédia aérea que vitimou a delegação da equipe de Chapecó em 2016.
O procurador jurídico da FCF, Rodrigo Capella, destacou que a entidade também tem interesse direto na redução da violência no futebol. Já as promotoras Aline Restel Trennepohl e Priscila Teixeira Colombo, que atuam na área de defesa do consumidor do MPSC, devem conduzir as discussões sobre a possível atualização do TAC. Durante o encontro, Aline destacou o caráter cultural e emocional do futebol, lembrando que a paixão do torcedor deve se expressar de forma saudável e respeitosa.
O secretário de Segurança Pública de Santa Catarina, Flávio Rogério Pereira Graff, avaliou que a violência relacionada ao futebol ainda é preocupante. Ele relatou que deixou de levar o próprio filho aos estádios após presenciar uma criança ser atingida por uma pedrada durante uma briga entre torcedores. Apesar disso, ressaltou avanços em sistemas de prevenção, como o uso de reconhecimento facial para identificar pessoas com pendências judiciais ou envolvidas em ocorrências anteriores.
Autoridades também destacaram a importância de investimentos em tecnologia e monitoramento para prevenir conflitos. O vereador de Chapecó e secretário municipal de segurança, Clóvis Leuze, afirmou que não existe uma solução simples para evitar confrontos quando há comportamento coletivo violento, reforçando a necessidade de ampliar o uso de equipamentos eletrônicos de controle.
Durante o debate, também foi levantada a responsabilidade de outros atores do futebol na construção de um ambiente mais seguro. O ex-jogador Genilson Alves ressaltou que atitudes de atletas dentro de campo podem influenciar o comportamento das torcidas, citando como exemplo negativo a briga generalizada entre jogadores de Cruzeiro e Atlético na final do Campeonato Mineiro.
Para o presidente do Avaí, Bernardo Pessi, o problema é complexo e exige novas abordagens. Ele defendeu maior diálogo entre torcidas organizadas de clubes rivais e avaliou que mudanças mais amplas sobre responsabilização podem depender de legislação federal.
Representantes das torcidas também reforçaram a importância do debate. Bruno Espíndola, da Associação das Torcidas do Avaí, afirmou que desde 2020 as organizadas discutem mecanismos para responsabilizar individualmente torcedores envolvidos em confusões. Artur Velter, relações públicas da torcida Gaviões, do Figueirense, destacou que educação e diálogo são fundamentais para reduzir a violência.
Ao final da reunião, o deputado Mário Motta lembrou que recentemente foi sancionada a Lei 19.721/2026, de sua autoria, que prevê punições para torcedores envolvidos em brigas relacionadas ao futebol. A legislação ainda depende de regulamentação, mas estabelece a responsabilização individual dos autores de atos violentos.




