O enigma do segundo voto
A polarização nacional entre Flávio Bolsonaro (PL) e Luiz Inácio Lula da Silva (PT) tende a irradiar efeitos diretos sobre o cenário eleitoral catarinense. Se a disputa ao governo apresenta contornos mais nítidos, a eleição ao Senado caminha para ser a verdadeira arena de incertezas no Estado.
Os levantamentos apontam liderança de Flávio Bolsonaro (PL) no cenário estimulado e, sobretudo, indicam uma tendência de crescimento consistente do nome do PL, enquanto o presidente Luís Inácio Lula da Silva (PT) aparece em trajetória de estabilidade com viés de queda.
Neste mês, o que se emerge é um cenário em consolidação. Não se trata apenas de vantagem pontual. Os dados sugerem que Flávio amplia sua presença no eleitorado, ganha densidade fora do núcleo ideológico mais fiel e começa a dialogar com parcelas que, até pouco tempo atrás, estavam dispersas. Lula, por sua vez, enfrenta desgaste natural de governo, dificuldade de expansão e maior resistência em segmentos estratégicos.
Esse desenho reforça a polarização que já marcou as duas últimas eleições nacionais. O quadro atual aponta para uma disputa cristalizada entre o PL, com Flávio Bolsonaro, e o PT, com Lula. A verticalização do voto tende a se repetir. Em ambientes polarizados, o eleitor costuma alinhar escolhas nacionais e estaduais, fortalecendo palanques que representem com clareza um dos polos.
Em Santa Catarina, onde o bolsonarismo teve desempenho expressivo nas últimas disputas, um crescimento contínuo de Flávio pode irradiar efeitos diretos na eleição de outubro. O governador Jorginho Mello (PL), pré-candidato à reeleição, tende a se beneficiar de uma onda nacional favorável ao campo do PL, consolidando o discurso de alinhamento com Brasília em caso de vitória do seu grupo político.
Foi nessa brecha que Jorginho Mello (PL) se consolidou em 2018, e é nela que o cenário volta a se redesenhar.
A candidatura de Caroline de Toni (PL) desponta com musculatura consistente, flertando com marcas históricas que remetem ao recordo do ex-governador Luiz Henrique da Silveira. Com um primeiro voto robusto, a disputa se concentra na segunda escolha do eleitor.
Esperidião Amin (PP), candidato à reeleição, movimenta-se para ocupar esse espaço no campo da direita, mantendo proximidade com o PL sem ser majoritário. Já declarou apoio à Flávio Bolsonaro à Presidência da República e sinaliza fidelidade ao eleitor conservador.
De outro lado, Carlos Bolsonaro surge com forte identificação junto ao bolsonarismo raiz, mas enfrenta rejeição elevada e a ausência de vínculos tradicionais com as bases catarinenses.
Nesse contexto, o fator 22 torna-se decisivo. Amin sabe que permanecer próximo da estrutura política que gravita em torno do Centro Administrativo pode assegurar a transferência do voto ideológico e atrair eleitores que buscam experiência. O cálculo é pragmático: apresentar-se como candidatura independente, mas alinhada à pauta conservadora, pode neutralizar o avanço de Carlos Bolsonaro.
Por outro lado, um eventual alinhamento a outro palanque poderia colocá-lo em posição antagônica numa eleição da rede de prefeitos, deputados e lideranças que hoje se concentram ao redor do governador.
No desenho atual, a decisão estratégica de Amin é o ponto de inflexão da disputa. Se a corrida ao governo parece seguir roteiro previsível, o Senado concentra a tensão real. Em Santa Catarina, é no segundo voto que a política costuma revelar suas maiores surpresas.

Visita
O senador Flávio Bolsonaro, pré-candidato à Presidência pelo PL, visitará Santa Catarina no dia 27 deste mês. Ao lado do governador Jorginho Mello, de Carlos Bolsonaro e de Caroline de Toni, ambos pré-candidatos ao Senado, Flávio vai percorrer diversas cidades do Estado. A visita acontece num momento favorável: as pesquisas nacionais mostram Flávio em crescimento consistente. Para Jorginho, quanto mais forte o candidato nacional, melhor o ambiente para sua reeleição.

Neutralidade
Dezesseis diretórios estaduais do MDB, incluindo Santa Catarina, entregaram ao presidente da bancada, Baleia Rossi, um manifesto pela neutralidade nas eleições presidenciais de 2026. O documento é um freio de mão contra qualquer movimento de aproximação nacional com o PT. O presidente do MDB-SC, Carlos Chiodini, assinou o manifesto ao lado da senadora Ivete da Silveira e resumiu o sentimento da bancada: cada estado tem suas particularidades e Santa Catarina quer liberdade para escolher seus caminhos.

Manifesto
Nos bastidores, o manifesto representa uma virada de postura do MDB catarinense, que nos últimos anos oscilou entre apoios e abstenções nas disputas nacionais. O deputado Valdir Cobalchini traduziu o clima: “Essa dúvida nos incomodava muito.” Com mais da metade dos diretórios do Brasil embarcando no movimento, o MDB sinaliza que 2026 será disputado com identidade própria, longe das polarizações que, na avaliação da legenda, só atrasam o país.

Acelera o Passo
A Assembleia Legislativa de Santa Catarina iniciou nesta quarta-feira (04) um calendário especial de sessões matinais, prática adotada desde 2010 para conciliar o calendário legislativo com o ano eleitoral. Ao todo, serão 18 sessões antecipadas, às terças e quintas-feiras, a partir das 10h, até junho. O objetivo é compensar a paralisação dos trabalhos em agosto e setembro, quando os deputados estarão nas suas disputas de votos.

Ruanda
O embaixador de Ruanda no Brasil, Lawrence Manzi, está em Santa Catarina, e foi recepcionado na Fecomércio SC na manhã de ontem. Na ocasião, conheceu o Sistema Fecomércio, que inclui o Sesc e o Senac. Um dos principais temas de interesse do diplomata foi o ensino à distância, apontado como alternativa para a qualificação profissional em seu país. A pauta também incluiu diálogos sobre investimentos na área do turismo.

Desmonte
Peça por peça, o governador Jorginho Melo desmonta a União Brasil na Alesc. Com convite pessoal, fisgou o deputado Marcos da Rosa, que migrará para o PL — o deputado embarcou na mudança em discurso ideológico e não apenas político. Nos bastidores, lideranças tiveram papel importante na consolidação da decisão. O prefeito de Blumenau, Egídio Ferrari, bem como Bruno Mello, filho do governador, e Alexandre da Silva, que atua na coordenação das igrejas evangélicas dentro do governo. Os deputados Sérgio Guimarães e Jair Miotto são os próximos: eles devem migrar para o Republicanos, partido aliado e sob a batuta do próprio Jorginho. Com a chegada de Marcos da Rosa, o PL chega a 13 deputados na Alesc. No fim das contas, o governador esvazia o União. E está conseguindo.

Férias
Hora de recarregar as energias. Saio por alguns dias. Volto no dia 25 deste mês.




