A tainha, a cota e o calendário eleitoral
O encerramento antecipado da safra da tainha em Santa Catarina se tornou um tema muito quente na política catarinense em menos de 24 horas. A temporada de 2026, que começou em 1º de maio, durou apenas 38 dias antes de ser encerrada pelo governo federal, porque a modalidade de arrasto de praia atingiu 90% da cota autorizada. Isso fez com que os pescadores fossem às ruas para protestar, os políticos gravaram vídeos mostrando sua indignação, e o governo estadual anunciou que vai à Justiça. Tudo isso é legítimo.
Mas é importante fazer uma pergunta: onde estavam todas essas pessoas no ano passado? Em 2025, o Estado chegou a recorrer ao Supremo Tribunal Federal após a imposição de cotas para a pesca artesanal. E, numa audiência de conciliação na Justiça Federal, conseguiu 150 toneladas adicionais, o que foi suficiente para evitar, pela primeira vez na história, o fechamento antecipado da safra. O problema não é novo, pois o sistema de cotas existe desde 2018. A tensão entre Brasília e as comunidades pesqueiras catarinenses se repete a cada safra. O que mudou em 2026 não foi a cota, mas sim o calendário eleitoral.
Estamos em ano eleitoral e a tainha se tornou um palanque político. É evidente que a oposição vê uma oportunidade política, mas o governo federal também tem uma grande parcela de responsabilidade nisso. A decisão de encerrar a safra, que afeta diretamente o sustento de muitas famílias, foi comunicada com apenas 24 horas de antecedência para que os barcos fossem recolhidos do mar. Isso mostra um padrão de gerenciamento sem diálogo. A cota foi atingida em apenas 38 dias numa safra considerada histórica pelo volume de peixes, e o Ministério da Pesca claramente não estava preparado para esse cenário nem tinha um plano de contingência para preservar a atividade artesanal.
Comunicar o encerramento de uma tradição centenária via nota oficial, sem reunião prévia com pescadores, sem transição, sem alternativa, é uma falha de gestão.
A causa dos pescadores artesanais é justa e merece atenção permanente. No entanto, o que merece ceticismo é uma solidariedade repentina de quem só descobre a tainha quando ela pode render votos.

Cobrança
Um deputado estadual lembrou a este colunista e foi direto ao ponto sobre as manifestações de políticos em torno do encerramento da safra da tainha: “O Ministério da Pesca é cargo indicado pelo PSD. Em vez de postar nas redes sociais, as lideranças do partido em Santa Catarina deveriam estar ligando para seus aliados em Brasília e cobrando uma solução.”

Caminho
A deputada federal Ana Paula Lima e Décio Lima adotaram uma postura de linha de frente para tentar reverter o encerramento da safra da tainha no Estado. Décio relatou à coluna que falou diretamente com o presidente Lula na manhã de ontem e que a ordem do Planalto é encontrar uma solução; sinal de que o tema chegou ao nível mais alto do governo federal. Ao longo da noite, eles estiveram reunidos com os ministros da Pesca, da Casa Civil e do Meio Ambiente, e o próprio Décio reconheceu que o nó é complexo: regras ambientais e acordos internacionais limitam a margem de manobra. “Estamos achando o caminho”, reforçou ele.

Tucanos indecisos
O PSDB, presidido em Santa Catarina pelo deputado estadual Marcos Vieira, definirá seu rumo político hoje. Lideranças da sigla se reunirão, em Florianópolis, para decidir qual caminho seguirão nas eleições de 2026. Embora exista a possibilidade de candidatura própria ao governo estadual, a tendência é de apoio a um nome já colocado na disputa majoritária. O encontro, que ocorrerá a portas fechadas, deverá indicar se o apoio será direcionado a João Rodrigues (PSD), Jorginho Mello (PL) ou até mesmo Gelson Merisio (PSB). Há forte inclinação para o apoio ao atual governador, embora lideranças tucanas do Vale do Itajaí já tenham declarado preferência por João Rodrigues.

Celular na cabine
Em estreia do podcast Voto+, do Grupo ND, o presidente do TRE-SC, desembargador Carlos Roberto da Silva, admitiu que o uso de celulares e equipamentos eletrônicos dentro da cabine de votação é um problema real e que a Justiça Eleitoral catarinense vai reforçar o combate à prática em 2026. A presidência do TRE se reunirá diretamente com os juízes eleitorais de todo o Estado no dia 3 de julho para alinhar a fiscalização e o treinamento dos mesários. Para o presidente do tribunal, uma equipe bem preparada é o principal instrumento para reduzir as ocorrências nas seções eleitorais.

Carimbador
O senador Esperidião Amin (PP) afirmou ontem que o “Senado não será carimbador” da decisão da Câmara dos Deputados sobre a redução da jornada de trabalho para 40 horas semanais com extinção da chamada jornada 6×1. A afirmação foi dada a empresários durante reunião da Câmara de Combustíveis da Fecomércio SC. O parlamentar afirmou que o tema deve começar a ser debatido mais a fundo nesta semana no Senado, com a definição do relator da matéria na Câmara Alta. Amin disse que a votação foi expressiva entre os deputados, mas que há espaço para um debate mais aprofundado entre os senadores.






