Preparados para o tigre
Por décadas, a cultura política brasileira trata as tragédias climáticas como surpresa. Chuvas chegam, encostas cedem, barragens rompem, famílias perdem tudo… e o Poder Público aparece depois, com cestas básicas, lonas, câmeras e discursos de solidariedade. A resposta era o produto. A prevenção, o discurso.
O governo de Santa Catarina parece estar tentando inverter essa lógica. E os números anunciados merecem atenção antes que virem retórica eleitoral.
O investimento, entre 2023 e maio deste ano, de cerca de R$ 1 bilhão em proteção civil e defesa civil é, segundo o próprio governo, sem precedentes na história do Estado. Para efeito de comparação, gestões anteriores chegaram a destinar R$ 50 milhões para a área.
A diferença não é marginal, é de escala. E escala, em prevenção de desastres, significa a diferença entre um sistema que funciona e um que apenas existe no papel.
A frase do governador Jorginho Mello sintetiza bem o espírito da iniciativa: “A gente não sabe o tamanho que vem [o El Niño], se é um tigre ou é um gatinho. Estamos preparados para o tigre, torcendo para que ele não venha”.
A declaração é politicamente incomum porque admite, ao mesmo tempo, a incerteza sobre a magnitude do fenômeno e a decisão de investir pesado mesmo sem essa certeza. Em vez de esperar o tamanho do problema para calibrar a resposta, como historicamente se faz, o governo optou por se preparar para o pior cenário. Isso exige uma maturidade institucional rara em ciclos eleitorais curtos, onde o que não acontece dificilmente vira voto.
Os investimentos incluem modernização de barragens, desassoreamento de rios, expansão da rede hidrometeorológica, ampliação das estruturas de resposta emergencial dos municípios e a Operação Primavera, que organiza estoques de itens humanitários antes da emergência, e formam um conjunto que vai além do improviso. A maior barragem do Estado, em José Boiteux, recebeu obra para corrigir problemas que incluem uma comporta emperrada desde 2023.
O coronel Fabiano de Souza, secretário da Defesa Civil estadual, foi preciso ao contextualizar o El Niño: o fenômeno não garante desastre, mas eleva consideravelmente o risco. Chuva mais frequente, mais volumosa, mais recorrente e, sob essas condições, a probabilidade de eventos extremos cresce.
Em 1983, o El Niño deixou um dos maiores rastros de destruição da história do Estado. O que está em jogo não é apenas a segurança das famílias catarinenses, é também a prova de que gestão pública pode funcionar de forma preventiva e não apenas reativa. Se o tigre vier e o Estado estiver de fato preparado, será um marco. Se vier e a estrutura falhar, nenhum número de investimentos anunciados vai segurar a conta política.

Lista tríplice
O TRT-SC (Tribunal Regional do Trabalho) define na próxima segunda-feira a lista tríplice para a vaga de desembargadora aberta após a morte de Gracio Ricardo Barboza Petrone. Disputam a indicação as juízas Eronilda Ribeiro dos Santos (Joinville), Karem Didoné (Balneário Camboriú), Maria Aparecida Ferreira Jeronimo, Maria Beatriz Vieira da Silva Gubert (Florianópolis) e Vera Vieira Ramos (Chapecó). A escolha será feita pelos desembargadores da Corte e a nomeação final caberá ao presidente da República, seguindo as diretrizes do CNJ para ampliar a participação feminina nos tribunais.

Cai mais um
O TJSC condenou mais um ex-prefeito dentro das investigações da Operação Mensageiro, desta vez pelo esquema de corrupção em Bela Vista do Toldo. O principal réu é Adelmo Alberti, ex-gestor da cidade por quatro mandatos, condenado a quatro anos e sete meses de reclusão em regime fechado. Ele recebia R$ 5.000 mensais em propinas do Grupo Serrana Engenharia para direcionar licitações de coleta de resíduos, totalizando ao menos R$ 190 mil. É a segunda ação penal da Mensageiro julgada no mesmo dia pelo TJSC, a outra foi aplicada ao ex-prefeito de Ibirama, Adriano Poffo: 13 anos e 10 meses de reclusão em regime fechado reforçando a dimensão do esquema que atingiu dezenas de municípios catarinenses.

Recomeço
O deputado estadual Júnior Cardoso protocolou na Alesc o projeto de lei 2/2026, que institui a Política Estadual de Recomeço e Recuperação Social das Pessoas Atingidas por Desastres Naturais em Santa Catarina. A proposta surge em meio ao alerta climático provocado pela previsão do “Super El Niño” e busca criar diretrizes para apoio social, psicológico e econômico às famílias atingidas por enchentes, enxurradas e deslizamentos no Estado.

Terceira via
O ex-ministro Ciro Gomes surpreendeu ao declarar apoio a uma eventual candidatura do presidente nacional do PSDB, Aécio Neves, à Presidência da República, pouco mais de um mês depois de ele próprio recusar o convite do partido para disputar o Planalto. Ciro defendeu Aécio como alternativa de moderação num cenário que, segundo ele, está sendo dominado pelo “aprofundamento do fosso ideológico, manipulado de lado a lado de forma interesseira”. O movimento sinaliza uma tentativa do PSDB de se reposicionar como terceira via.



