O teste de confiança de Merísio
O lançamento da chapa do chamado Campo Democrático em Santa Catarina, com Gelson Merísio (PSB) ao governo e Angela Albino (PDT) como vice, escancara um desafio que não é simples e que vai muito além de montar uma aliança eleitoral: conquistar confiança. Merísio aposta no diálogo como discurso. Fala em ouvir, respeitar divergências e construir pontes. Na teoria, funciona bem. Na prática, a história pesa.
Ele próprio reconhece apoio ao ex-presidente Jair Bolsonaro em 2018. É justamente aí que começa o problema. A esquerda catarinense não resiste por teimosia. Resiste porque tem memória. Não é sobre conveniência, é sobre acreditar. E confiança, na política, não se constrói em coletiva de imprensa nem em roteiro pelo interior. Se constrói com coerência ao longo do tempo.
Ciente disso, Merísio vem, há pelo menos 60 dias, tentando costurar essa aproximação nos bastidores, conversando com lideranças de diferentes correntes e abrindo canais de diálogo com setores que historicamente estiveram em campos opostos. Ainda assim, sabe que não fará esse caminho sozinho. A coordenação do plano de governo por Angela Albino, o envolvimento de Ideli Salvatti, ex-senadora e ex-ministra, e a participação do professor Helson funcionam como uma espécie de lastro político para a chapa. A aposta é clara: usar essas peças para dialogar e, principalmente, tentar convencer o núcleo mais radical da esquerda, que ainda rejeita o nome de Merísio na liderança da frente democrática.
Por outro lado, também há um certo realismo nesse movimento. A esquerda sabe que, dividida, dificilmente será competitiva em Santa Catarina. Então, o diálogo com alguém fora da bolha vira quase uma necessidade. É menos afinidade e mais estratégia.
O risco é evidente: uma aliança que existe mais por conveniência do que por identidade. E esse tipo de construção costuma cobrar a conta lá na frente.
Merísio parece entender isso quando fala em resistências “legítimas” e até em divergências “intransponíveis”. O problema é que, em política, algumas dessas barreiras não são apenas difíceis — são estruturais.
No fim das contas, Merísio parece disposto a enfrentar esse desafio com pragmatismo e persistência. A travessia não será simples, mas o movimento de diálogo já em curso indica uma tentativa real de construção política.

Em 2030
No discurso de lançamento da chapa Campo Democrático em Santa Catarina, Gelson Merísio foi direto ao afirmar que o plano original era outro: disputar apenas em 2030. Segundo ele, a ideia era retomar o debate interrompido em 2018, eleição que, na sua leitura, não teve confronto real de ideias. “Não havia o que debater”, resumiu, ao lembrar o segundo turno contra o então candidato Carlos Moisés, eleito governador. Disse que não há frustração e entende o momento político daquele ano como um fenômeno.

Determinação
A mudança de rota veio, segundo Merísio, por intervenção direta do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Ele relata que foi chamado pelo presidente, com quem diz ter criado relação desde 2022, e recebeu o convite — ou “determinação” — para disputar o governo em 2026. A missão seria clara: ajudar a construir uma frente ampla em Santa Catarina, considerado um dos estados mais difíceis para o lulismo. “Saí de lá candidato. Ponto”, resumiu, no estilo direto. Na foto, da esq. para dir.: Afrânio Boppré (PSOL), Angela Albino (PDT), Lula, Gelson Merísio (PSB) e Décio Lima (PT).

Irmãos
O governador Jorginho Mello sancionou a lei que garante matrícula de irmãos na mesma unidade escolar da rede estadual. A proposta é de autoria do deputado Sérgio Guimarães (União). A regra vale desde que haja vaga e a unidade ofereça a etapa de ensino necessária. A medida busca facilitar a rotina das famílias e organizar melhor o acesso à rede pública.

Reação
O deputado Alex Brasil (PL) criticou a decisão do STF, que formou maioria para invalidar a lei catarinense sobre cotas nas universidades. Autor da proposta, aprovada na Assembleia Legislativa de Santa Catarina em dezembro de 2025 e sancionada pelo governador Jorginho Mello, ele classificou o entendimento como “político” e afirmou que a norma buscava priorizar critérios de renda. O parlamentar também contestou argumentos de ministros e disse que houve debate no Legislativo. Apesar da derrota, garantiu que vai estudar os votos e preparar uma nova proposta.








